ABRINDO A TRILHA
Nossa relação com os seres vivos e não-vivos ainda está para ser construída. As árvores, por exemplo, estão aqui há 400 milhões de anos, segundo Richard Powers registra no seu livro A Trama das Árvores. Nele, Powers explica que o mundo não é um lugar feito pelos humanos, no qual as árvores apareceram depois, mas, o contrário. Atesta que a Terra é uma história de árvores, e que árvores não são objetos, são sujeitos nessa história, porque não são somente um amontoado de amadeirado e verde, mas sujeitos que têm características, possibilidades e comportamentos distintos.
A ecologista canadense Suzanne Simard, por exemplo, propõe uma compreensão da comunicação na natureza, oferecendo ao mundo uma visão curiosa, que sustenta uma natureza interconectada, inteligente e sensível. No livro A Árvore-Mãe – Em busca da sabedoria da floresta (2021). Para Simard, as árvores-mães, as mais “antigas e poderosas da floresta”, são hubs de um sistema integrado e colaborativo: estão no centro de uma vasta rede subterrânea de raízes e fungos, que se difunde por todo o solo, conectando as árvores em uma espécie de constelação. As mais velhas nutrem as mais novas, dão-lhes alimento e água, e as suas gerações se comunicam enviando sinais químicos, como fazem nossos neurotransmissores. Ao morrerem, as árvores-mães legam às parentes o conhecimento de como se adaptar e sobreviver numa paisagem em constante mudança.
É na Reserva Particular do Patrimônio Natural Lafigueira que encontramos a Figueira de Pedra – árvore mãe – como explica Simard, e que nomeia a Unidade de Conservação (UC), criada em uma parceria entre Thomas Brieu e Rodrigo Vieira.
Localizada em Piracaia, São Paulo, no bioma da Mata Atlântica, é a primeira unidade de conservação do município, que faz parte da Serra da Mantiqueira. A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) é uma modalidade de área natural, que pode ter qualquer tamanho, desde que tenha potencial para a conservação da natureza. No Brasil, existe legislação ambiental para protegê-las. Podem ser criadas por proprietários de imóveis rurais ou urbanos, pessoas físicas ou jurídicas. A Reserva Particular do Patrimônio Natural Lafigueira foi oficializada em 30 maio de 2017, no âmbito Federal pelo ICMBio – Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Poderia ter permanecido uma propriedade particular, mas a ela foi dada outra destinação, a de se transformar em uma reserva para conservar e preservar outras formas de vida, além da humana. E, assim, no dia a dia, vai criando oportunidades para que todos os que trabalham ou passam por aquele lugar possam vivenciar experiências de que o mundo é permanentemente construído pela comunicação entre diversos tipos de seres.
É nesse território e ambiente que foi imaginado o Lafigueira casa floresta, um espaço de hospedagem e acolhimento para processos de criação, pesquisa e educação. Situado na Serra da Mantiqueira, em meio a uma área de preservação ambiental, propicia o desenvolvimento de experiências individuais e coletivas por meio de residências, seminários, encontros e imersões. A estrutura integrada e plural oferece acomodações, alimentação e serviços de apoio, compondo um ambiente propício à criação, à partilha e ao cuidado. É um espaço aberto a diferentes campos do saber, como a arte, a música, a dança, o teatro, a fotografia, o cinema, o vídeo, práticas de corpo e estudos ambientais.
CONSERVAÇÃO E PRESERVAÇÃO
Estudos apontam que de 70% a 90% da biodiversidade desprotegidas restante nos hotspots do mundo estão em terras privadas. No Brasil, do total de vegetação nativa remanescente, 32% estão dentro de Unidades de Conservação (UCs) e Terras Indígenas, enquanto a maioria (68%) encontra-se em terras privadas ou sem titulação. Saiba mais.
Na LaFigueira, as ações se cruzam como um campo de encontro entre arte, ecologia e conhecimento. Cada iniciativa nasce do desejo de construir espaços de aprendizagem vivos onde o corpo, ambiente e pensamento se articulam como práticas de escuta e convivência. Essas ações são promovidas por pessoas, coletivos, instituições ou associações que conectem saberes e experiências interdisciplinares como, sustentabilidade, comunicação e preservação ambiental, ampliando as formas de compreender o mundo e de agir em relação ao comum e à natureza.
ESTRUTURA E TOPOLOGIA
A Casa Floresta integra soluções ecológicas e práticas de bioconstrução que orientam o uso da água, da energia e dos recursos locais. É um modo de hospedar-se que acompanha as mudanças do clima e valoriza o comum. Nossa cozinha é feita no local, guiada por uma curadoria que combina técnicas contemporâneas com sabores da Mantiqueira, priorizando ingredientes de pequenos produtores. Pesquisas em hospitalidade e estudos ambientais mostram que espaços sustentáveis e enraizados na natureza ampliam o bem-estar, intensificam a percepção do corpo e influenciam a decisão de quem busca experiências com qualidade.
ARTES DO CORPO
O ambiente de prática foi concebido segundo o modelo de um estúdio de dança, com estrutura adequada à absorção de impacto e ao desenvolvimento da performance física. De configuração ampla, acolhe atividades interdisciplinares que abrangem proposições artísticas, seminários e encontros dedicados à investigação das práticas corporais, dos processos de criação e dos modos de comunicação.
ATUAÇÃO E FOMENTO
SERVIÇOS AMBIENTAIS (PSA) – FUNDAÇÃOFLORESTAL / SIMA
Em 2021, a Lafigueira foi selecionada no Edital de Chamada nº 01/2021 da Fundação Florestal, vinculado à Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo(SIMA). A iniciativa reconheceu a relevância ambiental da reserva e contribuiu para o fortalecimento da sua gestão e proteção contínua, por meio de um cronograma de atividades que envolviam sinalização e manejo de espécies invasoras, cercamento, aceiros e proteção de nascentes.projeto deu origem à Associação de Moradores Reserva do Pinhal, um coletivo responsável pela gestão de um conjunto de proprietários rppnistas no entorno imediato da Lafigueira, formando um mosaico de proteção no seu lado norte. Essa articulação expande a área preservada e fortalece uma rede comunitária comprometida com a conservação ambiental e o cuidado com o comum.
EDITAL DE APOIO ÀS RPPNS NA BACIA DO MÉDIOTIETÊ
FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA
Em 2025, a reserva foi novamente contemplada, dessa vez pelo edital da Fundação SOS Mata Atlântica, em parceria coma Simbiose Ambiental de Atibaia. O projeto prevê a implementação de um Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF), ampliando a capacidade de resposta da reserva frente aos desafios climáticos e fortalecendo ações de manejo integrado do território.
TERRA MUDA E ASSOCIAÇÃO RESERVA DO PINHAL
COMUNIDADE E PROTEÇÃO AMPLIADA
À luz dos valores da Lafigueira, o Terra Muda é um projeto habitacional que propõe novas formas de ocupação do território, orientadas pela ética ecológica e pelo uso compartilhado da terra para uma cultura do envelhecimento e longevidade. O projeto deu origem à Associação de Moradores Reserva do Pinhal, um coletivo responsável pela gestão de um conjunto de proprietários rppnistas no entorno imediato da Lafigueira, formando um mosaico de proteção no seu lado norte. Essa articulação expande a área preservada e fortalece uma rede comunitária comprometida com a conservação ambiental e o cuidado com o comum.
CLIMA E COORDENAÇÃO
Rodrigo Vieira é paranaense, doutorando em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. É graduado em Comunicação das Artes do Corpo pela mesma instituição. Iniciou sua formação em dança no Studio A Ballet Clássico e na Escola de Danças Clássicas do Teatro Guaíra, em Curitiba (PR). Em 2001, integrou companhias de dança contemporânea na Europa, como o Ballet Gulbenkian (Lisboa), Rui Horta (Lisboa e Porto) e Gelabert Azzopardi (Barcelona). Desde 2008, em São Paulo, direciona sua pesquisa para o corpo, a cena e a ecologia. Em 2014, aproximou-se da dança do passinho nas comunidades cariocas, atuando como coreógrafo no espetáculo Na Batalha – O Passinho como você nunca viu. Entre suas obras coreográficas estão Se piscar já era (2021), É na batida (2017), Os Clássicos do Passinho (2017) e #Passinho (2015), apresentadas no Brasil, na Suíça e nos Estados Unidos. Saiba mais.
Thomas Brieu é franco-brasileiro, graduado em Socioeconomia pela Université Paris IX – Dauphine e pela Universidad Autónoma de Madrid (1994). Possui MBA em Agronegócios pelo Institut National Agronomique Paris-Grignon – INA PG e pela École Supérieure de Commerce de Reims – ESC Reims (1996). É mestre em Energias e Biocombustíveis pela Universidade de São Paulo – USP (2009). É autor e coautor dos livros Escute, expresse e fale (Editora Rocco, 2023) e Escutatória (Editora H1, 2024). Com trajetória consolidada no ambiente corporativo e dedicação contínua à pesquisa e ao ensino da escuta aplicada à comunicação, foi formado pela escola suíça Krauthammer e certificado pelas abordagens Talk Lean (Interactifs – França), DO IT (França), DISC (Thomas International) e PCM – Process Communication Model. Desenvolveu um método próprio de escutatória, voltado à identificação de padrões de linguagem cooperativos e não produtivos, promovendo estratégias comunicacionais baseadas em empatia, assertividade e negociação colaborativa. Saiba mais.

ICMBIO – INSTITUTO CHICO MENDES
DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE
Órgão responsável pelo reconhecimento e fiscalização das RPPNs (Reservas Particulares do Patrimônio Natural) no Brasil. A RPPN Lafigueira foi oficialmente reconhecida por meio da Portaria, publicada no DOU, em 30 de maio de 2017.

FUNDAÇÃO FLORESTAL / SIMA – SECRETARIA DE
INFRAESTRUTURA E MEIO AMBIENTE DO ESTADO DE SÃO PAULO
Parceira no âmbito do Edital de Chamada nº 01/2021, que integra o Programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA). A proposta apresentada pela Lafigueira foi contemplada e resultou no fortalecimento da sua proteção e gestão ambiental.

FUNDAÇÃO SOS MATA ATLÂNTICA
& SIMBIOSE AMBIENTAL DE ATIBAIA
Parceiras no edital de apoio às RPPNs da Bacia do Médio Tietê. A proposta contempla a elaboração e implementação de um Plano de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (PPCIF), com início em 2025, ampliando a resiliência e a capacidade de manejo da reserva.

SIMBIOSE AMBIENTAL DE ATIBAIA
A Associação Serra do Itapetinga – Movimento pela Biodiversidade e Organização dos Setores Ecológicos (SIM-BiOSE) é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), sem fins lucrativos, voltada à promoção da conservação ambiental, da cultura e da cidadania.

APRP – ASSOCIAÇÃO DE PROPRIETÁRIOS DA RESERVA DO PINHAL
Associação formada por proprietários e residentes das áreas que compõem um conjunto de RPPNs vizinhas à Lafigueira, na porção norte da reserva. Essa articulação contribui para a formação de um cinturão de proteção contínua e colaborativa, ampliando o alcance das ações de preservação e governança ambiental.







